Artigos e Cronicas

25/07/2017 11:08

Concepções e “viagens” de um cheirador

Antônio Padilha de Carvalho*

Não me sinto feliz. No primeiro mundo, maconha já virou droga obsoleta, mas todo mundo usa. Conheci muita gente que não se lembram de mim. A lua é redonda em todos os lugares. Somente banda de nerds desejam anonimato, visto não saberem lidar com situações que envolvem desenvoltura e desembaraço. Contra a grana, não há argumento.

Não acredito em rótulos e ideologias. Ninguém é diferente de ninguém. Somos todos ossos, carne, sangue. Na hora de colocar a cabeça no travesseiro, foda-se se você curte Goldfrapp, Amado Batista, Banda Calipso ou Sertanejo Universitário. Somos apenas mais umas merdas dormindo. Se pensar diferente, é um merda preconceituoso.

O sonho de todo alcoólatra sóbrio, é ultrapassar os doze passos. Sinto-me sozinho no mundo. Se tirarem as paisagens, os monumentos e museus da Europa, some o paraíso. No mundo inteiro, os jovens só estão preocupados com eles próprios. As amizades que fiz foram e são todas frias e passageiras.

Em certos dias de nossas vidas, nós simplesmente fazemos coisas sem explicações, sem motivos concretos. Em que momento da vida, uma pessoa envereda para um determinado caminho? Questão financeira, educação, intervenção Divina, signo, posição lunar?

O ser humano foi tão comprimido pelas sociedades que perdeu qualquer referência no quesito relacionamento. As pessoas simplesmente convivem umas com as outras muitas vezes sem saber por que, se acomodam em situações ridículas sem se respeitar e esquecem de viver.

Às vezes queria entrar em coma profundo para conhecer um outro mundo e esquecer completamente a minha vida. Sempre sofri muito com os meus pensamentos. Por que não podia simplesmente viver?

Sinto-me confuso, com poucos momentos de felicidade plena, aqueles momentos em que a cabeça fica vazia e o prazer é o único objetivo. Nunca me achei a favor da monogamia. A vida é uma só, e se deve aproveitá-la no máximo. Eu não sei direito o que é ser feliz. Apenas um por cento da população mundial é interessante.

As pessoas vivem de forma blasé, não estão nem aí pra ninguém. Por que você acha que o mundo está essa merda? Eu queria só uma vez relaxar a mente por um bom tempo. Dizem que eu preciso conhecer novas pessoas, e me interessar por elas de verdade. Tudo em que acredito não serve pra nada. Sou travado, sou distante. Pena que o sexo não seja a resposta pra tudo.

Não existe nada mais na moda que não seguir a moda. Ficar feio é o certo e se divertir é o errado. Quando eu quero, enxergo no escuro. Tirando Nova York, os Estados Unidos são uma bosta! Minha loucura é full time.

Muitos cheiram e não sabem aproveitar os efeitos da coisa. Querem dissecar minha personalidade. Fico ansio para envelhecer. Deve ser demais estar à margem da sociedade. Nem todo velho cheira mijo. Acaba as raves sujas com malabares e andrógenos lunáticos e zumbis de pupilas dilatadas. Todos vivemos no mesmo microuniverso.

Quando a anfetamina começa a fazer efeito, sinto-me o pior dos mortais. A viagem é algo absolutamente racional e doloroso. Ao contrário do que diz a bula da droga, em poucos segundos uma depressão me acomete e pareço conversar com meu cérebro. Ainda mais taciturno, sou um louco transitando entre loucos.

Não consigo entender o prazer profissional. Apesar de estar de certa forma tranquilo, insisto em me preocupar com pequenas bobagens e acabo usando drogas que não causam efeitos satisfatórios.

Se eu tivesse nascido na Europa, nunca viria ao Brasil. Quando o MDMA começa a fazer efeito, olho para uma fileira de formigas tento diferenciá-las por idade, sexo, raça, credos, mas não consigo. A música eletrônica tende a ser muito chata quando ouvida em demasia.

De vez em quando penso: preciso trabalhar. Encaro novidades com certa frieza. Vivo praticamente à base de álcool, entorpecido por pastilhas. Por que estamos sempre seguindo conselhos?

Dia 19 de abril é dia do índio. Como você acha que estou sentindo vendo que o Supla é uma celebridade? Estou tentando me acostumar com toda essa merda. Nunca corri atrás de uma resposta concreta.

Estou em constante fuga marginal da realidade: um encontro com o abismo. As drogas que consumo servem para desligar o zumbido que constantemente me incomoda.

Se quiser fazer Deus rir, conte-lhe os meus sonhos. Minha geração é conservadora. Apesar de nos drogarmos em baladas, fumarmos maconha no pátio da faculdade e treparmos no primeiro encontro, carregamos uma carga careta tão forte que somos incapazes de mudar as regras. Estamos atrasados em relação àqueles que cresceram na década de 1970 com um espírito contestador.

Qual a lição que tiramos da dor? É preciso ficar longe de tudo para aprendermos a olhar para nós, para sentirmos como é bom se foder na vida. Estou entre ir para Europa ou viver no Acre participando do Santo Daime.

Preciso me convencer que sou um artista. É melhor aprendermos a conviver com os nossos problemas em vez de vivermos tentando superá-los. Tenho consciência que a minha geração, mais confusa que as anteriores e que, mesmo com acesso irrestrito a tudo, insiste em crescer mais lentamente e se comprometer cada vez menos.

* Antônio Padilha de Carvalho advogado, geógrafo e escritor


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