Artigos e Cronicas

19/09/2017 13:05

Censura, liberdade, libertinagem e bom senso

Antonio P. Pacheco*

Nas últimas duas semanas reverberou nas redes sociais uma sucessão de atos condenatórios à exposição de criações de artistas brasileiros com temática sexual. A primeira onda foi deflagrada pela exibição viral feita pelo Movimento Brasil Livre (MBL) contra obras integrantes da mostra “Queer Museum” na galeria do Banco Santander em Porto Alegre.

Na semana que passou, a segunda onda polêmica em torno de obras de arte com conteúdo considerado ofensivo, imoral e mesmo ilegal por algumas pessoas nasceu em Campo Grande e segue reverberando pelo país a fora.

Agora, surge a terceira onda, em Cuiabá, a capital mais calorenta e calorosa do Brasil, matrona quase tri-centenária e berço de grandes artistas “fora do eixo” litorâneo. As obras causadoras da polêmica são do consegrado artísta plástico Gervane de Paula, incluídas em uma mostra que, segundo seus organizadores, visa apenas enaltecer os três séculos de história da capital de Mato Grosso por meio de seus maiores pintores.

A mostra foi montada em um dos grandes shoppings centers da cidade, o Pantanal, vizinho do Centro Político Administrativo do estado e do maior templo evangélico da América Latina, o “Grande Templo da Assembleia de Deus”. Detalhes geográficos consideráveis para o entendimento dos fatos.

Conforme a Ticiana Pessoa, gerente de Marketing do shopping, a mostra foi pensada como uma singela forma de destacar arte e a cultura local com a proposta  de “incentivar o resgate das tradições regionais e mesclar talentos dos artistas da região” e também “estimular a inclusão social e cultural dos clientes e despertar na comunidade a importância histórica e cultural da nossa cidade”.    

Vi a exposição. Obras belissimas de Dalva de Barros, Nilson Pimenta, Adir Sodré, Benedito Nunes, Carlos Lopes, Capucine Picicaroli, Jonas Barros, Ruth Albernaz e, claro, Gervane de Paula.

Nada demais, portanto, haveria alí, não fosse por um detalhe: a fase atual da produção artística do Gervane de Paula e o local da exposiçao. O artista está mergulhado numa fase em que critica e questiona “tudo e todos” em suas telas, instalações e performances. São obras cruas, de forte impacto visual, apelo sensual e sexual, cheias de sombras, escuridão e explosão de cores que se combinam para formar imagens e composições que chocam o observador desavisado.

Algumas peças do Gervane nesta fase atual podem ser classificadas ordinariamente como “feias”, outras “horripilantes”, algumas podem ser vistas mesmo como obscenas e ofensivas, como é o caso das duas peças escolhidas para integrar a mostra dos 300 anos de Cuiabá instalada no shopping Pantanal, um lugar de frequência livre, sem controle de faixas etárias. Não precisa muito esforço para entender que juntar obras da fase atual do artista com aquele ambiente não ia dar certo.

Aberta no dia 29 de agosto, a exposição seguiu aberta sem chamar muita atenção até que...alguém resolveu filmar as obras do Gervane de Paula, criticar a exposição de forma genérica e postar tudo nas redes sociais, viralizando o caso e deflagrando a polêmica.

Aqui, é preciso direcionar o debate para o seu foco correto, objetivo deste artigo: Gervane de Paula não tem culpa alguma de ter sua arte transformada em ponto de partida para reações negativas e críticas à exposição. Esta responsabilidade é inteiramente do curador ou curadora da mostra. Dito isso, vamos aos fatos.

Isoladas, as obras do Gervane de Paula acabaram fora do contexto em que foram concebidas. Assim, é natural que a mensagem que carregam explicita e simbolicamente, chegou aos observadores como um ruíndo desagradável, e as obras ganharam roupagem de ofensa moral, vulgaridade e agressão gratuita à valores familiares e religiosos tradicionais.

Ou seja, o mesmo aconteceu com as três ou quatro obras da exposição "Queer Museum" e com a exposição “Cadafalso”, da artista plástica mineira, Alessandra Cunha , em Campo Grande, cuja tela em que denuncia a pedofilia, foi apreendida pela polícia após ser denunciada por três deputados estaduais.

Em nenhum dos três casos ocorreu a suposta “intolerância fascista” como as reações críticas às exposições passaram a ser rotuladas por grande parte de seus defensores. Entendo que não se trata de censura ao artista e à sua obra, mas apenas uma reação proporcional ao grau de desconexão destas com o conjunto das demais obras das mostras em que foram inseridas.

É um caso típico de ruido de comunicação. Um clássico erro de curadoria.

Nos três casos, podemos observar claramente que, tais obras, não se encaixam dentro da lógica  necessária para um diálogo minimamente coerente entre o ambiente, o expectador, a obra e o autor desta. Falharam os curadores/curadoras na escolha das peças e dos ambientes criando uma desconexão entre as obras, os seus autores e os expectadores. Para os leigos em comunicação e semiótica: ouve uma quebra dos limites de tolerância ao estranho, ao desagradável, ao incompreensível. Logo, as obras se tornaram “ofensivas” e “indecorosas”.

No caso do Gervane de Paula, que nos afeta mais diretamente por sua proximidade e identidade geográfica e cultural, o ruído se tornou ainda mais gritante, porque se dá em um ambiente íntimo, caseiro, com um artísta querido de todos nós.

Ele não é culpado de nada. Suas obras são incríveis, criativas, impactantes, com mensagens poderosas de denúncia. Mas, foram expostas fora do contexto, desconectadas do todo em que deveriam permanecer. Daí o estranhamento, o choque e a rejeição.  Quando recolocadas no contexto da fase atual do artista, as duas obras fazem todo o sentido e poderiam ser expostas sem problemas, desde que a exposição fosse classificada para o público adulto e o ambiente adequado para recebe-las.

Insisto: os curadores (as) são os responsáveis por estabelecer a lógica do diálogo entre o público e as obras expostas. Se este profissional não considera as respostas negativas que podem resultar desse diálogo, ou mesmo a subversão das mensagens explícitas ou simbolicas que transmitem as obras, então, não está apto para a função.

Das obras do Gervane, pessoalmente, achei de mau gosto e inapropriada a sua exposição naquele ambiente. Nesta fase de sua produção, o Gervane de Paula, tem explorado abertamente a escatologia, com um apelo sensual e sexual bastante forte e isso, claro, gera mal-estar em muitas pessoas, incompreensão e aversão. É natural que seja assim. Causar reações profundas é o propósito primeiro de qualquer obra de arte.

Sou contra a censura de todo tipo. No entanto, sou plenamente a favor da classificação etária para exibição de obras de arte, cinema e acesso à literatura. Entendo que essa "onda" moralista, que alguns classificam como fascista, é só um efeito colateral do estado de libertinagem e corrupção ética e moral da sociedade brasileira como um todo.

A verdade pura e simples é que tem faltado bom senso e mesmo talento a alguns curadores.

É preciso respeitar a suscetibilidade dos outros para sermos respeitados de volta em nossas originalidades e liberdade. Não dá para confundir liberdade com libertinagem, arte realista com pornografia e escatologia com originalidade ou criatividade. Chocar, denunciar, fazer pensar é próprio da arte e do ser artista. Porém, de forma alguma se deve fazer sexo ou expor cenas do ato sexual em praça pública, exibir visceras e sangue e nem defecar em altares, livros e imagens sacras para criticar a repressão sexual, a violência e a alienação pela fé e dogmas religiosos, por exemplo. A retirada das obras das exposições, ao meu ver, foi acertada.

*Antonio P. Pacheco é jornalista e escritor


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