Artigos e Cronicas

03/10/2017 15:20

Resposta ao jornalista Onofre Ribeiro

Comentários em rádio de Cuiabá sobre juízes são de uma leviandade extrema, uma vulgaridade

José Arimatéia Neves da Costa*

Nunca tive vida fácil! 

Trabalho desde os 11 anos de idade, inicialmente ajudando meu pai em seu comércio, mas vez ou outra dando uma escapada do serviço no comércio familiar, para fazer um frete de carrinho de mão na feira municipal, nas sextas-feiras, para ganhar um trocado e garantir um cinema, com direito a uns dropes ou pastilhas Garoto. Tarzan, Dganjão, Ringo, Django, Sartana e por aí vai..., eram meus filmes prediletos!

Nunca tive nem bicicleta na minha infância, pois éramos em 10 irmãos, em “escadinha”,  e meus pais não tinham condições de comprar 4 ou 5 bicicletas para as gerações que estavam na idade desse “sofisticado” brinquedo.

Fazia meus próprios brinquedos, piões, papagaios, carrinhos de tábuas etc., como enfim o faziam as crianças e pré-adolescentes de classe média baixa como eu!

Depois, o comércio de meu pai quebrou e nossa família desceu um degrau, para a classe baixa, com períodos de grandes aflições e dificuldades financeiras intermináveis!

Frequentei sempre escolas públicas, do antigo bê-á-bá à Universidade! Primeiro vestibular na UFRN em 1981, com 16 anos, aprovado para o Curso de Engenharia Quimíca, que cursei apenas um ano e obtive nova aprovação na hoje Ufersa, para o curso de Agronomia.

Cursando Agronomia, dava aulas de química, física e matemática em cursinhos, em Mossoró (RN), onde fica o ccampus da Ufersa, para garantir um dinheirinho para as rodinhas de cachaça com os colegas, comprar umas roupinhas e outras despesas pessoais, pois, na Residência Universitária, ao menos a alimentação e moradia eram gratuitas.

No segundo ano de Agronomia, fiz e passei num concurso da Petrobras, de nível médio, para operador de refinaria de petróleo, o que me fez trancar a matrícula e ir para Sergipe e, depois, Bahia fazer cursos e estágios para aprender as atividades da função para a qual seria contratado pela Petrobrás.

Voltei para o Rio Grande do Norte e até tentei voltar para o curso de Engenharia Química, que estava com matrícula trancada até então, mas não tive condições de acompanhar o curso devido minha jornada de trabalho.

Eram 7 dias de trabalho e 7 dias de folga na Petrobrás (sistema de embarque, típico de plataformas marítimas de petróleo), o que me impossibilitou de levar até o fim o curso.

Por uma espécie de conveniência, resolvi fazer novo vestibular, desta feita para Direito noturno, tendo obtido a aprovação na UFRN e concluído o curso em 1990, mesmo com apenas metade da frequência em sala de aula, com imensas dificuldades e muitas renúncias pessoais.

Juiz em Rondônia, aprovado no concurso de 1994 e empossado em 14 de março de 1994, vim para Mato Grosso em 1999, também aprovado em concurso da Magistratura, empossado em 26 de fevereiro de 1999.

Minha história pessoal não tem nada, absolutamente nada de excepcional, e nem é uma exceção na Magistratura, pois as pesquisas feitas pela AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros) revelam que um alto percentual de magistrados Brasil afora são oriundos da classe média-baixa ou mesmo da classe baixa.

Ponto.

Hoje, somo 23 anos e 8 meses de Magistratura, ao longo dos quais acumulei experiências profissionais e principalmente experiências de vida, com destaque para um tirocínio particular de respeito às pessoas e à dignidade do ser humano de forma geral.

Estou presidente da Associação Mato-grossense de Magistrados, para o que fui democraticamente escolhido pelos meus pares, registrando que, no exercício desse mister, sempre me pautei pela sinceridade, transparência e serenidade, o que pode ser testemunhado por todos, especialmente pela mídia em geral.

Outros impropérios foram falados contra magistrados pelos ilustres jornalistas Onofre Ribeiro, João Edisom e Paulo Sá, sobre os quais nutrimos grande respeito como profissionais de escol e como pessoas humanas.

Pois bem. Segunda-feira passada, dia 25/09/2017, pela manhã, fui, mais uma vez  acionado por um magistrado associado, com uma irresignação que já é recorrente no seio da Magistratura, sobre críticas duras aos juízes e ao Judiciário, levadas a termo pelos jornalistas de um programa de noticiais e opiniões da Rádio Jovem Pan FM.

O associado me mandou os áudios via WhatsApp, onde eu pude ouvir os impropérios irrogados pelos ilustres jornalistas contra os juízes, vindo-me logo aquele ardor nas orelhas e aquela secura na garganta, coisa rápida, porque, de imediato, já falei ao colega para ter calma e que iria refletir sobre o assunto.

Na mesma manhã, outros colegas fizeram comentários indignados em nosso grupo associativo, no Telegram, alguns sugerindo uma imediata reação da associação.

Em um desses comentários, meio que desvairados, um dos jornalistas desse Programa da Joven Pan FM afirmou  que os juízes quase todos seriam “filhinhos de papai” e que  os juízes são “...gente humanamente analfabeta, não conhecem de pessoas, nunca trabalharam ou não precisaram trabalhar, pai protegeu, foi protegidinho, nunca ouviram um não na vida....”

Afirmações de uma leviandade extrema, porque sem nenhuma cientificidade e sem nenhum respaldo nas pesquisas sociais realizadas dentro da magistratura brasileira.

Como já dissemos alhures, e para exemplificar até fizemos um breve relato de minha vida pessoal e acadêmica, um grande percentual dos magistrados Brasil afora são oriundos da classe média-baixa ou mesmo da classe baixa, como é o meu caso! Que pode não ser regra, mas também não é exceção!

Angústia, revolta e indignação foram os sentimentos que me invadiram e, certamente, o mesmo devem ter sentido os muitos colegas que, como eu nunca, foram “filhinhos de papai” e que ralaram e muito para obter um diploma de Bacharel em Direito, e depois muito mais raladas para ser aprovados num concurso público para a magistratura, para ter de ouvir esse discurso injusto, irresponsável e leviano, ter de ouvir agressões gratuitas e despropositas às suas dignidades, enquanto profissionais e pessoas humanas.

Julgar é mais fácil que se imagina, o difícil é julgar com Justiça e equanimidade!

Por isso, mesmo perplexo num primeiro momento com as expressões deselegantes e até chulas, resolvi que iria atender as solicitações dos colegas e iria falar algo a respeito uma vez, uma única vez!

Eis algumas das expressões faladas pelos profissionais do jornalismo:

“...juízes são os que mais matam com suas liminares...”;

“...não conhecem nada da vida, pegam um processo e julgam sem conhecer nada da vida...”;

“...não sabem que uma decisão deles destrói vidas, distribui injustiças...distribui desigualdade...”;

“...uma elite que está tomando conta do Judiciário..., é gente humanamente analfabeta, não conhece de pessoas, nunca trabalhou ou não precisou trabalhar, pai protegeu foi protegidinho, nunca ouviram um não na vida....”;

“...não têm calos nas mãos, nunca vão ter, nem nas mãos e nem na cabeça, porque na cabeça tem de pensar...”;

 “...juízes bandidos...”;

“...juízes  borrabostas...”.

Outros impropérios foram falados contra magistrados pelos ilustres jornalistas Onofre Ribeiro, João Edisom e Paulo Sá, sobre os quais nutrimos grande respeito como profissionais de escol e como pessoas humanas, cuja dignidade deve ser preservada acima de tudo, acima de tudo mesmo!

Malgrado os destratos verbais e as agressões n’alma  queremos apenas dizer nós, juízes, estaremos sempre aqui para garantir que esses brilhantes jornalistas e todos os demais cidadãos brasileiros continuem a emitir sua opinião e exercer livremente o direito à livre manifestação do pensamento!

Sobre as palavras vulgares e despropositadas dos citados jornalistas, nós magistrados gostaríamos apenas de dizer, lembrando daquela mensagem bem singela que vez em quando aparece nas redes sociais, e que nos parece estará ao nível dos ilustres jornalistas.

Discípulo: Mestre, qual o segredo da felicidade?

Mestre: Nunca discutir com idiotas!”

Discípulo: Não concordo que esse seja o segredo!

Mestre:  Você tem razão! 

Lamentável que profissionais do jornalismo, respeitados no Estado de Mato Grosso, demonstrem tanto destempero verbal, tanta falta de educação e tanta falta de preparo intelectual para emitir opiniões ao menos razoáveis sobre fatos sociais e sobre pessoas, homens maduros que deixam transparecer que nem aquelas lições básicas advindas das experiências no trato com a dignidade das pessoas a vida lhes propiciou.

Mais, lamentável ainda é que esse discurso é recorrente!

Resta-nos afirmar, na linha de pensamento do mestre, em nome dos magistrados de Mato Grosso, agora e doravante:

Onofre Ribeiro, você tem razão!

João Edisom, você tem razão!

Paulo Sá, você tem razão!

*JOSÉ ARIMATÉA NEVES DA COSTA é juiz de Direito em Cuiabá, presidente da Associação Mato-grossense de Magistrados (AMB)

 

Fonte: MidiaNews
 
 


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