Artigos e Cronicas

01/12/2017 08:22

Educação Política (33)

Vicente Vuolo*

As universidades do Brasil estão pedindo socorro. Os parcos recursos destinados pelo governo para cobrir todas as despesas, já não podem mais alimentar as pesquisas, muito menos pagar um salário digno aos professores.

É a precarização da carreira do professor.

Para se ter uma ideia da gravidade do problema a principal universidade do país, a Universidade de São Paulo (USP), hoje, está com 90% do orçamento comprometido para pagar professores e funcionários; esse índice chegou a 106% em 2014 e 2015.

A reitoria, então, proibiu a contratação de novos professores efetivos. Docentes da USP não podem ser demitidos e têm aumentos de salário por tempo de serviço.                 

De acordo com o Portal da USP, o número de professores temporários aumentou mais de três vezes nos últimos três anos. Eram 65 docentes nesse regime de trabalho em 2014 e hoje são 216. 

O assunto assustou a todos os brasileiros, a partir da reportagem do jornal “O Estado de S. Paulo”, o Estadão, que trouxe a fundo a decadência do ensino superior do Brasil: “os temporários são professores com contratos de 12 horas de trabalho semanais e remuneração média de R$ 1.600,00, o que equivale a menos de dois salários mínimos, mesmo com titulação de doutor”. 

Esse aumento de professores temporários é prejudicial sobre todos os aspectos. Além de não terem vínculo com a instituição eles não precisam fazer pesquisa.

E são, justamente, os artigos escritos por professores – provenientes das pesquisas – fundamentais para qualificar universidades em rankings internacionais.

Em 2017, a USP caiu de posição em duas dessas listas, feitas pelo “Times Higher Education” e pela “Quacquarelli Symounds”, referências mundiais na avaliação de ensino superior.

O que está acontecendo com a USP e demais universidades públicas é um “crime doloso” praticado pelo governo. É um incentivo à fuga dos melhores profissionais do ensino universitário para o exterior.                   

No Rio de Janeiro, consequência da crise que devasta o estado, a Universidade Estadual, a UERJ, é uma tristeza só.

Em agosto, a revista Exame publicou uma reportagem sobre o crime. Professores não recebem seus salários há meses, sem orçamento, vários de seus serviços fecharam, pesquisas tiveram que ser paralisadas.                   

Em todo o país vai se repetindo essa história. O que significa isso? É um descaso sim com a educação, com a pesquisa e com o futuro do país. Mas não é um descaso qualquer.

País algum conseguiu se desenvolver sem investimentos de grande vulto em suas universidades.                  

O Brasil começou tarde a criar universidades. A Universidade Nacional Maior de São Marcos, em Lima (Peru), foi criada em 12 de maio de 1551.

Só no século XX o Brasil criou suas universidades: em 1909, a Escola Universitária Livre de Manaós (Manaus, AM). Em 1911, a Universidade de São Paulo. Em 1912, a Universidade do Paraná.

Mas foi com o forte investimento realizado nas décadas de 1970 e 1980, na formação de mestres e doutores no exterior, que as universidades brasileiras conseguiram se destacar em qualidade.                   

Hoje, o Brasil tem universidades respeitadas em todo o mundo e seus pesquisadores são respeitados e citados nas principais publicações internacionais.

Mesmo assim, perdemos recorrentemente vários cientistas para centros internacionais, porque aqui não é fácil fazer ciência.

O excesso de burocracia, os orçamentos incertos, a falta de incentivos e a dificuldade no patenteamento de invenções e inovações, são fatores que desestimulam nossos cérebros. 

Apesar disso tudo, centenas de outros continuam aqui, produzem ciência e formam profissionais em todas as áreas do conhecimento.         

Nos últimos anos, porém, a situação tem chegado ao limite. Os cortes orçamentários em pesquisa chegam a mais de 80% em algumas áreas.

Programas inteiros são fechados, bolsas cortadas e salários atrasam. Para 2018 o cenário é o mesmo, se não for pior.                 

É um verdadeiro crime de lesa pátria o que se estão fazendo com nossas universidades, incluindo-se nossa Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que vem perdendo recursos desde 2014.                  

Um projeto de desenvolvimento nacional (e também de desenvolvimento regional) tem que, necessariamente, incluir investimentos robustos e constantes nas universidades e centros de pesquisa.

Caso contrário, perderemos décadas ou até mesmo um século.

Sem nossas universidades fortes, o país empobrecerá, ficará mais dependente do exterior e perderá nossos jovens e brilhantes pesquisadores para outros países.

VICENTE VUOLO é economista, cientista político e analista legislativo do Senado Federal.


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