Cultura e Arte

SHOW LITERO-MUSICAL 20/02/2018 11:27

Poeta Antônio Sodré renasce em show tributo na Casa Cuiabana

Homenagem ao poeta Antônio Sodré reúne artistas da cena cultural da década de 1980 na Casa Cuiabá em noite de fortes emoções

Antonio P. Pacheco

Especial para o Pauta Extra

A "Casa Cuiabana" foi o palco escolhido para um revival histórico da agitada e underground cena cultural Cuiabana na década de 1980. Pelo menos duas centenas de pessoas assistiram na noite de segunda-feira,19, o emocionante renascer do poeta Antônio Sodré, o "Sodrezinho", de sua poética visceral e urbana, sua música engajada e psicodélica, sua literatura irônica, crítica e realista no "Showdré", um evento cênico-musical, plástico e literário como há muito não se via em Cuiabá.

A ideia de realização do espetáculo ShowDré foi cultivada por mais de duas décadas pelo jornalista Kleber Lima, ora secretário de Cultura do Estado, que admirador e amigo do poeta, músico, livreiro e historiador, desde quando cursou Comunicação Social na UFMT em meados dos anos 80. O que era para ter sido um show performático com Antônio Sodré ao vivo no palco, se transformou em um evento-tributo póstumo transmutado em resgate e renascimento pela força e magia da arte do homenageado.

Esta transformação circunstancial, espontânea e evolutiva das ideias e comportamentos, seres e elementos da natureza, aliás, foi parte essencial da obra e vida de Antônio Sodré, que se auto-intitulava "el poeta de la transmutación", assim mesmo, em portunhol, numa referência à integração dos povos do continente e ao orgulho da sua latinidade sul-americana .  

O evento, segundo o próprio idealizador, Kleber Lima, só veio a se materializar, para o deleite de quem gosta, consome e vive a arte e a cultura, graças à reunião e voluntariado de contemporâneos, amigos diletos e próximos do poeta Antônio Sodré, como o músico, artista plástico e poeta Amauri Lobo, o videomaker e músico Eduardo Ferreira, as poetas e escritoras Cristina Campos e Luciene Carvalho, o poeta e acadêmico Aclyses Matos, o compositor e vocalista Adriângelo Antunes, Joel Delatorre, o baterista Rubão e tantos outros. "Sem que todos assumissem como sua a iniciativa do ShowDré, certamente ele não teria sido possível", declarou Lima, visivelmente emocionado na abertura do evento.

Onde quer que o poeta Antônio Sodré esteja - era um materialista absolutamente crente na força criadora que cria e recria diariamente o universo - o poeta deve ter sorrido timidamente diante do evidente sucesso da noite, e certamente, feliz em saber que sua poesia, sua arte, segue emocionando, instilando sentidos, provocando reflexões, ferroando as consciências entorpecidas.

Mais do que uma homenagem, o evento multi-artístico trouxe novamente à superfície e à luz a inquieta e inquietante obra de Antônio Sodré, um poeta que tinha orgulho de suas raízes populares, suburbana e operária, e que do bairro surgido de uma ocupação, o Pedregal - onde morou toda a sua juventude e vida adulta - lançou-se ao infinito e imponderável mundo da literatura universal para ocupar o espaço que lhe cabe como pensador e artista.

A poesia inquieta e questionadora de Sodré, exposta em cartazes, varais e filipetas durante o evento, cantada, declamada e encenada durante o evento, fisgou as mentes e corações da platéia e semeou o desejo urgente em muitos de conhecer mais profundamente a obra do poeta. Uma pergunta se tornou constante entre os presentes e permanece, por hora, sem resposta: quando teremos uma edição completa da obra de Antônio Sodré?

A resposta só pode ser dada pelo famoso artista plástico Adir Sodré, irmão do poeta, e guardião do espólio literário deixado por Antônio Sodré, falecido em 2011. O artista plástico, aliás, foi uma ausência muito sentida no evento, ao qual não compareceu. Por uma forte razão, certamente.    

 

 


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