Reportagens Especiais

12/09/2015 13:01

Agentes do DOI cometeram atentado que matou secretária da OAB em 1980

Comissão da Verdade identifica terroristas militares que praticaram o atentado à bomba contra a OAB em que morreu Lyda Monteiro da Silva em 1980 

Da Redação

Com O Globo

O atentado à bomba que matou Lyda Monteiro da Silva, secretária do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Eduardo Seabra Fagundes, em 27 de agosto de 1980, no Rio de Janeiro, foi praticado por agentes do Destacamento de Operações de Informações do Exército. O ato terrorista foi planejado e executado sob as ordens do coronel Freddie Perdigão Pereira, do CIE. A revelação é resultado de investigações feitas pela Comissão da Verdade do Rio de Janeiro, cujos resultados foram divulgados na sexta-feira, 11. Segundo apurou a Comissão,  foi o sargento ?Guarani?, codinome de Magno Cantarino Motta, agente do DOI, quem entregou pessoalmente a carta-bomba endereçada ao presidente da OAB. No dia do atentado, o sargento, disfarçado de funcionário dos Correios, entregou o pacote explosivo nas mãos de Lyda Monteiro. A carta, no entanto, foi aberta pela chefe da secretaria da entidade e explodiu em seu colo. Lyda Monteiro, que tinha 59 anos, morreu a caminho do hospital. [caption id="attachment_3482" align="alignright" width="441"]O atentado à sede da OAB foi uma tentativa de parar o processo de redemocratização no Brasil O atentado à sede da OAB foi uma tentativa de parar o processo de redemocratização no Brasil[/caption]   Ainda conforme testemunhas ouvidas pela Comissão, a ação foi comandada pelo coronel Freddie Perdigão Pereira, do CIE, e a bomba foi confeccionada pelo sargento ?Wagner?, codinome de Guilherme Pereira do Rosário que morreu em uma explosão quando se preparava para cometer um atentado no Riocentro em 30 de abril de 1981. A investigação da Comissão da Verdade do Rio durou dois anos e chegou a quatro testemunhas que ajudaram a identificar os autores. À época, a autoria do ataque à OAB foi atribuída a grupos de direita contrários à redemocratização. No entanto, desde 2010, já se sabia que havia uma conexão direta entre os atentados terroristas à OAB e ao Riocentro. Oficiais do Exército contaram que o mesmo grupo responsável pelo atentado ao Riocentro teria mandado a carta-bomba para a OAB. Segundo um coronel da reserva que conhecia a fundo os agentes do DOI, ?Wagner? e ?Guarani? (Magno Cantarino Motta) participaram das duas operações. [caption id="attachment_3483" align="alignleft" width="461"]Os mesmos terroristas ligados ao DOI e a CIE do Exército que atacaram a OAB tentaram explodir o Riocentro durante show musical em 1981 Os mesmos terroristas ligados ao DOI e a CIE do Exército que atacaram a OAB tentaram explodir o Riocentro durante show musical em 1981[/caption] ENTIDADE DIZ QUE ATENTADO FORTALECEU A SOCIEDADE Logo após a revelação da Comissão da Verdade de que o atentado à bomba na sede da Ordem dos Advogados do Brasil, em 1980, foi realizado por agentes da repressão, a entidade divulgou nota, assinada pelo presidente Marcus Vinicius Furtado Coêlho, lamentando o episódio, mas destacando que o ocorrido ?acabou por fortalecer a sociedade brasileira?. Confira a nota na íntegra: ?Um encontro do Brasil com a sua história. Os nossos filhos agora poderão ler por completo esse pesar passado do país, a lembrar que jamais podemos admitir retorno à regimes de ditaduras. Nunca mais a voz única do autoritarismo. Queremos o respeito à pluralidade e a diferença, a convivência sem ódio e sem rancor. A intolerância não constrói uma nação justa e fraterna. A democracia pressupõe a liberdade. Para os males da democracia, apenas um remédio: mais democracia. A bomba, mesmo que dirigida ao presidente da OAB Nacional, foi lançada contra a sociedade brasileira, contra os valores democráticos e acabou por vitimar fisicamente dona Lyda Monteiro. O triste episódio acabou por fortalecer a sociedade brasileira, que lutou ainda mais duramente para a aprovação de uma constituição da República. Defender as garantias constitucionais é a melhor forma de homenagear a história de dona Lyda Monteiro e consolidar a democracia?, afirma, na nota, Marcus Vinicius Furtado Coêlho.

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