Reportagens Especiais

26/06/2015 15:58

Usuários do Brasil consomem 4 vezes mais cocaína que a média mundial

 

Da Redação

Com Agências

O Brasil se transforma em um dos maiores mercados para a cocaína, com uma prevalência que supera a dos Estados Unidos e atinge mais de quatro vezes a média mundial. Os dados estão sendo publicados nesta sexta-feira (26) pelo Escritório de Drogas e Crimes da Organização das Nações Unidas (UNODC, na sigla em inglês), que também revela que o Brasil passou a ser o maior centro de distribuição de cocaína no mundo da última década, citado em 56 países como o local de trânsito da droga. Segundo a ONU, produção de coca no mundo parece ter atingido seu ponto mais baixo desde 1990. O informe também aponta para uma contração nos mercados dos Estados Unidos e da Europa. Mas é o consumo na cocaína na América do Sul que mais preocupa. A taxa de prevalência da droga na região passou de 0,7% da população em 2010 - com 1,8 milhões de usuários - para 1,2% em 2012, um total de 3,3 milhões de pessoas. As taxas sul-americanos são hoje três vezes a média mundial e parte do aumento teria ocorrido por causa do aumento do mercado no Chile e na Costa Rica. "Mas o aumento do uso de cocaína na região é liderada pelo aumento do uso no Brasil, que é o maior mercado de cocaína na América do Sul", alertou a ONU. "Apesar de não haver uma pesquisa recente no Brasil, extrapolando dados a partir de pesquisas com estudantes universitários, a UNODC estima que a prevalência do uso da cocaína seja de 1,75% da população adulta do país", indicou. O dado se contrasta com a estimativa da ONU de que a cocaína seja consumida por 0,4% da população adulta mundial. Se ela continua elevada na América do Norte e na Europa, o informe revela também que existe uma "tendência geral de queda" nesses mercados. Nos Estados Unidos, a estimativa é de que a prevalência da cocaína chegue a 1,6% da população a partir dos 12 anos de idade. No total, o mundo contaria com um total de 17 milhões a 20 milhões de usuários da droga. Neste ano, o informe aponta para uma queda do cultivo da coca, chegando a seus menores níveis desde 1990. Na Colômbia, a capacidade de produção seria a menor desde 1996. Mesmo com um cultivo mundial equivalente a 170 mil campos de futebol, a destruição de áreas levou a uma redução da plantação em 10% entre 2012 e 2013. Para a ONU, a queda do cultivo pode ter tido um impacto também na queda do consumo, com menor acesso ao produto nos Estados Unidos e no Canadá. Ações coordenadas entre vários países e uma guerra entre grupos criminosos também ajudaram na redução do consumo. TRÂNSITO O Brasil ainda foi mencionado 1,7 mil vezes como país de trânsito entre 2005 e 2014. Em termos de citações, é superado pela Argentina, mencionada em cerca de 2,1 mil casos em dez anos. Mas o número de países que indicaram o Brasil é o maior do mundo, revelando que o território nacional seria a maior base de exportação da droga. [caption id="attachment_1772" align="alignright" width="725"]Segundo a ONU, 1,75% da população adulta brasileira usa da cocaína, contra 0,4% da população mundial Segundo a ONU, 1,75% da população adulta brasileira usa da cocaína, contra 0,4% da população mundial[/caption] Quarenta e cinco países de destino da cocaína mencionaram a Argentina como ponto de trânsito, contra 31 para a Colomba. Incluindo todas as demais drogas, apenas o Paquistão supera o Brasil, com 178 países do mundo o citando local de trânsito da heroína. "Por conta de sua posição geográfica, o Brasil tem um papel estratégico no tráfico de cocaína, e os confiscos dobraram no País em 2013 para mais de 40 toneladas", indicou a ONU. "A cocaína entra no Brasil por avião, por terra (carros, caminhões e ônibus), por rio (barcos que cruzam o Amazonas), antes de ser enviada para o exterior, principalmente para a Europa, tanto de forma direta como via África", declarou a ONU - 30% da droga confiscada no Brasil tem o mercado externo como objetivo. Somando todas as drogas ilícitas, a ONU estima que existam 246 milhões de usuários no mundo, pouco mais de 5% da população entre 15 e 64 anos de idade - 27 milhões de pessoas seriam dependentes, dos quais metade por drogas injetáveis. PROBLEMAS CARDIACOS Ao todo, 71% das pessoas que consomem cocaína possuem algum tipo de afetação leve no coração, embora não apresentem sintomas, uma anomalia que caso se agrave pode provocar infarto ou morte súbita e que poderia ser revertida deixando de consumir a droga. Essas conclusões fazem parte de um estudo apresentado nesta quinta-feira (6) em Valência, que conseguiu quantificar a magnitude do efeito que o consumo de cocaína produz no sistema cardiovascular e detectá-lo em pacientes assintomáticos por meio de técnicas de imagem. A pesquisa foi feita em 94 pessoas, sendo 81 homens, com a participação do Eresa Grupo Médico, três hospitais valencianos e um de Londres. O resultado foi publicado na revista científica "Journal of Cardiovascular Magnetic Resonance", e é a primeira pesquisa destas características que analisa de forma global todas as cavidades do coração e a aorta em pacientes assintomáticos. A cardiologista Alicia Maceira, coordenadora da Unidade de Imagem Cardíaca do Eresa, afirmou à Agencia EFE que os dados preliminares são "promissores", já que, ao deixar de consumir cocaína na fase inicial da doença, "é possível reverte o dano miocárdico e normalizar a função do coração". Após utilizar uma técnica de imagem de cardio-ressonância magnética, se estudou o tamanho e a função do coração das pessoas que participaram da pesquisa e se pôde detectar danos leves localizados no miocárdio de 71% delas. USUÁRIO E TRAFICANTES O STF (Supremo Tribunal Federal) prepara-se para julgar em breve um recurso da Defensoria Pública de São Paulo que pede que o porte de drogas para consumo próprio deixe de ser considerado crime no país, sob argumento de que o Estado não pode punir alguém que está fazendo mal apenas a si mesmo, nem interferir na liberdade e privacidade dos indivíduos. A expectativa é de que o julgamento ocorra no início do segundo semestre. [caption id="attachment_1773" align="alignleft" width="800"]A legislação brasileira não distingue com clareza os usuários dos traficantes A legislação brasileira não distingue com clareza os usuários dos traficantes[/caption] Para Pedro Abramovay, 35, ex-secretário Nacional de Justiça no governo Lula e especialistas no tema, a tendência é que a principal corte do país considere inconstitucional o artigo da Lei de Drogas que criminaliza o consumo, seguindo o caminho trilhado por cortes constitucionais de outros países, como as da Argentina, Colômbia e Espanha. Ele defende que o STF vá além da mera decisão de descriminalizar o consumo e defina claramente um limite mínimo para porte que não possa ser considerado tráfico, o que, na sua opinião, teria efeito de reduzir as prisões de usuário pobres. Como a lei atual hoje não define critérios para distinguir traficantes de usuários, na prática, diz Abramovay, são os policiais que decidem. "Como as nossas estruturas de desigualdade são muito fortes, o critério acaba sendo este: se a pessoa é pega na favela, ela é traficante, se é pega fora, é usuário. O juiz só vai analisar o caso com cuidado lá na frente, e acaba chancelando a decisão da polícia", afirmou em entrevista à BBC Brasil. Após ocupar diversos cargos no Ministério da Justiça no governo Lula, Abramovay deixou a administração petista logo no início do governo Dilma Rousseff, devido à grande reação negativa a sua declaração contra a prisão de pessoas com pequenas quantidades de drogas. Hoje, ele é diretor para a América Latina da Open Society Foundations, organização do bilionário americano George Soros, que tem a questão das drogas como uma das suas principais áreas de atuação. "Vários países da região já descriminalizaram, Colômbia, Argentina, Chile, Uruguai, Equador. O Brasil está muito atrás na legislação sobre drogas", critica.

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