Reportagens Especiais

10/05/2015 18:40

Mulheres congelam óvulos e adiam maternidade

Carol Knoploch
O Globo
Há sete anos, Constanza Woltzenlogel, com 35 e solteira, foi questionada pelo ginecologista sobre o futuro: "Ele me perguntou, sem rodeios, se eu queria ser mãe", lembra Constanza, hoje com 42. "E me explicou que, se tivesse condições, deveria congelar os óvulos. Isso porque o tratamento é caro. Assim, eu poderia pensar em ser mãe aos 40 anos com material genético de 35", completa a advogada, que congelou os óvulos naquela época.
Quatro anos depois, com 39 anos, descongelou parte do material. E hoje, apaixonada por Thomás, de 2 anos, vai comemorar mais um Dia das Mães.
Constanza teve sorte. Seu tratamento, atualmente uma tendência crescente entre ?trintonas? solteiras ou afim de se postergar a gravidez para se dedicar à carreira profissional, deu certo desde o início. Ela reagiu bem à medicação que acelera a ovulação e congelou grande quantidade de óvulos. Teria condições de fazer novas fertilizações, mas engravidou de primeira. A advogada conta que a gravidez foi tranquila.
"Fui feliz na escolha do momento. Mas a natureza é sábia. E pode ocorrer dos pais não conseguirem acompanhar a energia dos filhos. Eu e meu marido sempre praticamos esportes e temos disposição",pondera Constanza, faixa preta de caratê, casada com Klayton, de 41 anos, faixa marrom de jiu-jítsu. "E, graças a Deus, nosso filho prefere gastar energia do que ficar vidrado na TV."
O tratamento se tornou ainda mais conhecido quando a atriz norte-americana Jennifer Aniston, hoje com 46 anos, admitiu ter feito, quando tinha 39. O assunto foi amplamente comentado há cerca de dois anos. Por aqui, já conquistou, por exemplo, as atrizes Camila Morgado, Paula Burlamaqui e Karina Bacchi. As clínicas ouvidas pelo GLOBO confirmam que a procura vem aumentando.
O crescimento da prática, hoje disseminada nos EUA entre mulheres que querem adiar a gravidez, pode ser explicado em parte por um dado da pesquisa do Instituto Census Bureau, de abril, que revela que quase metade das mulheres americanas entre 15 e 44 anos não tem filhos. Segundo os dados, o índice subiu de 45%, em 2004, para 48%, em 2014.
Em alguns casos, o adiamento da gravidez é até incentivado pelas empresas, o que gera polêmica. Ano passado, a Apple e o Facebook dividiram a opinião pública ao anunciar que bancariam o congelamento de óvulos de funcionárias nos EUA.
 
Pioneira no Brasil - No Brasil, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, 38% das mulheres de 15 a 49 anos não tinham filhos em 2013. Entre mulheres de 25 a 29 anos, esse índice foi de 40%, percentual que era de 33% em 2004.
O tratamento, no entanto, é caro. E, quanto mais tarde é iniciado, mais caro fica. Isso porque a mulher tem de tomar mais remédios para estimular a ovulação e, assim, aumentar a possibilidade de material a ser coletado. Quem tem mais de 35 anos, precisa de mais doses porque, provavelmente, induzirá a ovulação em mais de um ciclo (a cada tentativa, paga-se tudo de novo, incluindo o congelamento).
Só a aspiração dos óvulos e a vitrificação (congelamento) sai entre R$ 8 mil a R$ 17 mil. Fora a medicação e o processo depois (fertilização e inseminação).
Adiar a maternidade a espera de um pai idelaizado ou de um momento 
mais tranquilo na vida profissional tem levado mulheres
 a terem  filhos cada vez mais tarde. (Foto:Ilustração/Arq.Web)
Assim como Constanza, a também advogada Zélia Natalli, de 54 anos, se surpreendeu com a mesma indagação de seu ginecologista. Há cerca de 15 anos: "Nem sabia que os óvulos envelheciam. Muito menos sobre o congelamento, que era inédito no Brasil."
Ela queria ser mãe, mas não tinha planos concretos, e o namorado, que havia conhecido recentemente, tinha três filhos pequenos. Ele preferia esperar para uma nova jornada com crianças.
Zélia congelou os óvulos em 2001 e, três anos depois, fez a inseminação. Hoje, casada com o então namorado, é mãe de Júlia, de 13. Ela é a primeira criança brasileira que nasceu a partir do congelamento de óvulos.
"Tive tempo para estudar, fiz três faculdades, e viajar bastante. Muitas pessoas diziam que eu seria mãe-avô. Sou mais mãe hoje do que se tivesse tido a Júlia com 18. Decidi ser mãe aos 40 para cuidar dela e não deixá-la com a babá enquanto estudava", diz Zélia.
Zélia comemora o Dia das Mães como se tivesse ganhado na Mega-Sena. E foi mais ou menos isso que aconteceu.
A medicina reprodutiva alcançou patamar bastante inovador para as mulheres que desejam postergar a maternidade. Porém, mesmo com tantos avanços, não é garantia de sucesso.
Jules White, doutor em ginecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, conta que Zélia teve apenas oito óvulos congelados. Destes, apenas três ?sobreviveram com alta qualidade? aos processos de congelamento e descongelamento. Foram feitos, então, dois embriões, implantados no útero dela. "Não tínhamos outro se a tentativa não tivesse dado certo", lembra White.
Segundo ele, o congelamento dos óvulos demorava cerca de seis horas e era mais comum a formação de cristais de água. Hoje, são necessários apenas 15 minutos. O índice de aproveitamento depois do descongelamento era de 40% a 50%. Hoje, gira em torno de 90%.  "O óvulo é como uma bolha de sabão. E sai de uma temperatura de 37° para menos 196°". comenta White.
Seleção natural - O Grupo Huntington comparou a taxa de fertilização de óvulos congelados e óvulos frescos. E foi semelhante. O estudo foi publicado na revista científica ?Fertility and Sterility?, em outubro de 2014.
"Após a fertilização, cujo sucesso é semelhante para ambos os casos, implantamos os embriões de melhor qualidade. Eles são resultado de uma seleção natural. São cerca de 40% de todo o material", explica Thais Domingues, uma das autoras do estudo.
Por isso, os especialistas ressaltam que o tratamento deve começar cedo.
"Se é para congelar, que se faça antes dos 35 anos",opina Marcio Coslovsky, diretor médico da Primordia Medicina Reprodutiva.
Segundo ele, houve aumento na procura pelo tratamento: "A questão é que, com 25 anos, elas não se imaginam solteiras aos 35. Pensam que é cedo para esse tipo de questionamento. Muitas esperam o príncipe encantado e perdem o timming."
Fernanda Castro, de 35, não se melindrou. Há uma semana, pagou R$ 18 mil por hormônios, aspiração dos óvulos e congelamento por um ano. Diz que ser mãe sempre ?foi uma certeza?:  "Não encontrei ainda o pai dos meus filhos. Congelando os óvulos, ganho tempo para realizar meu sonho."

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