Artigos e Cronicas

14/04/2016 13:02

A crise brasileira e o dia seguinte

João Edisom de Souza*

 

Que o Brasil está vivendo uma crise grave é público, notório e ninguém nega, mas toda crise tem um desfecho e a nossa não será diferente. A questão é que dentre as possibilidades existentes para o fim, em nenhum dos casos alguém planejou o que fará no dia seguinte do pós crise. Como será acordar da ressaca do desfecho? Faço neste texto uma correlação com uma obra que mistura ficção e realidade para contar a reconstrução da Alemanha no pós Segunda Guerra. 

O livro que falo é de Rhidian Brook, “O dia seguinte”. O autor trabalha uma história que começa com o coronel Lewis Morgan sendo eleito prefeito de um distrito dentro da Alemanha derrotada no pós-invasão americana-inglesa e assim todo o cenário territorial é de destruição e sofrimento. Dentro de uma casa nesta cidade vão conviver uma família inglesa e outra alemã que diante do fim da 2°Guerra Mundial, entre os anos de 1939 e 1945, terão que superar as diferenças e desconfianças causadas pela própria guerra para reconstruir não só a Alemanha, mas suas próprias vidas. 

A situação política brasileira só não é pior que a situação econômica do momento, que é agravada pelo próprio embate político. O governo federal, endividado até o pescoço, continua pegando mais dinheiro dos fundos de pensão, das reservas e extraindo dos bancos públicos e privados o que dá. É uma empresa falida contraindo empréstimo. Hoje o governo brasileiro é responsável por mais de 80% do volume de empréstimos feitos em todo país. 

A saúde um caos. A violência com índices exacerbados em todo o país. Taxa de desemprego subindo todos os dias. Os funcionários públicos e organizados a beira de voltar as grandes greves dos anos 80. Investidores internacionais assustados e contidos e a inflação fazendo aquecimento para entrar em campo. 

Vamos as hipóteses do desfecho: o impeachment não passa na câmara ou no senado, os ataques ao governo cessam e Dilma e sua equipe terão que juntar os cacos e tocar o Brasil até 2018. Eles tem alguma ideia do que fazer no pós tempestade, sabendo que sua situação critica atual é justamente por ter vencido as eleições sem nenhuma verdade concreta, sem ter nenhum projeto governamental e ter passado a improvisar governança em um governo com mais de 13 anos de poder? Será que agora, dentro do furacão, encontrará um norte? Um rumo que não seja apenas o de salvar a própria pele? 

Vamos a outra possibilidade: a presidente Dilma é impedida e assume o vice presidente Michel Temer. Qual o projeto, qual o plano governamental para o país? O que esperar do PMDB, partido que acaba de desembarcar do governo ao qual ajudou eleger? E da oposição, que apesar de ter ficado 13 anos fora do poder, não construiu nenhum projeto de viabilidade para governar, ou mesmo para uma possível reconstrução do país, vão dizer o que? Assumir para ver como fica?

 Não é por nada que rumores de uma eleição em outubro envolvendo todas as esferas e abreviando o mandato atual de quem foi eleito em 2014 tem caído bem aos ouvidos de muitos políticos de ambos os lados, mesmo não havendo previsão constitucional para isso. É uma demonstração clara que ninguém sabe como será o dia seguinte. Aí na campanha vira o milagre? 

Voltando a narrativa do livro de Rhidian Brook e as suas famílias em extremos opostos da guerra. A família Morgan é o lado vencedor da guerra. Tem luxo e regalias. Mero engano, meus caros! É uma família como qualquer outra. Tem problemas a todo instante. A família Lubert é o lado perdedor. Vive na desgraça e o medo constante de serem fuzilados ou não receberem o tal do certificado branco, que nada mais é do que um papel que diz que eles são “fichas limpas” – não foram associados ao Partido Nazista. 

Hoje já temos dois Brasis, queira ou não. É verdade que um sempre será a maioria, mas a minoria também será de brasileiros (os derrotados) e não será tão maioria assim independente do resultado final. Temos que reconhecer a força de quem perder essa batalha. Assim como as famílias Morgan e Lubert tiveram que conviver embaixo do mesmo teto na narrativa do livro, nós, brasileiros, teremos de nos reconstruir e reconstruir nossos sonhos juntos no mesmo território, mas talvez separados na forma de pensar.

 Muita coisas ainda devem acontecer na República não tão republicana chamada Brasil, mas devemos pensar urgente no dia seguinte porque “O dia seguinte” do livro mostra que as cinzas da guerra encobrem não apenas o certo e o errado, mas também a verdade e a mentira. Fazer o Brasil pensar no dia seguinte á salvar a nação de possíveis desastres e retrocessos. 

*João Edisom de Souza é Analista Político, Professor Universitário em Mato Grosso


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