Artigos e Cronicas

27/12/2016 12:24

Nasce uma Nova Utopia

Antonio P. Pacheco*

“Arquimedes disse: Dê-me um ponto de apoio e levantarei o mundo. Da mesma forma que eu também posso dizer à classe operária: dá-te o voto universal e igualitário e terás alcançado a ferramenta fundamental da (tua) libertação.” (Eduard Bernstein)

O mundo parece se desmanchar tristemente neste Ano do Senhor de 2016. Ao menos o “mundo” ocidental, hipercapitalista, colonialista e belicista com tudo de mal que produz, pode estar em seus últimos estertores. É o que nos mostram 100% das retrospectivas exibidas e publicadas pelos vários meios de comunicação planeta à fora. Particularmente, tenho a nítida compreensão de este será, senão o último, um dos últimos anos da Era da Globalização do Capitalismo Selvagem.

Já se pode ver por todos os lados que as ideias e o projeto de um mundo neoliberal se desmancham a olhos vistos, corroídos por sua própria voracidade. As manchetes políticas e econômicas mundo a fora não nos concede dúvidas quanto a isso. Só não enxerga quem é obtuso, analfabeto funcional, alienado ou intelectualmente desonesto.

O filósofo alemão Georg Wilhelm Fredrich Hegel - por favor, não confundam com Fredrich Engels! - e o economista americano Francis Fukuyama se enganaram fragorosamente em sua Teoria do Fim da História. Ambos, cada um à seu tempo e com visões particulares, porém convergentes e complementares, preconizaram que  o capitalismo e a democracia burguesa se constituiriam no coroamento da história da humanidade e que, com a "destruição" do fascismo e do socialismo, a humanidade atingiria o ponto "culminante" de sua "evolução" com a "democracia" balizando integralmente as relações humanas, as relações políticas, as relações econômicas.

A Nova governança proposta pelo Neo-Socialismo Democrático é uma saída que se imporá por esta exaustão popular provocada pelo capitalismo selvagem que tem flagelado o mundo inteiro.

Pura balela. De forma alguma a ascensão e supremacia do capitalismo neoliberal trouxe equilíbrio à sociedade e ou colocou um fim na história. Pelo contrário. Agravou profundamente as diferenças sociais e econômicas, esgarçou o tecido do pacto social, diluiu as bases de sustentação da democracia e das liberdades individuais.

O que vimos nas últimas três décadas em especial, foi a acelerada derrocada de princípios éticos, morais, espirituais, humanistas e de livre mercado comercial, jogados pelo Neoliberalismo bárbaro em uma “vala mortuária” onde agora jazem a dignidade, a cidadania, a soberania das nações mais pobres e ou que estão mais ao sul do globo terrestre.

Vimos, assombrados e paralisados, todos estes paradigmas milenares serem estupidamente substituídos pelo consumismo desenfreado e pela exploração dos recursos naturais de forma irresponsável e predatória; pela escravização total do indivíduo às regras do “mercado”, seja nos seus projetos de vida pessoal e ou nos sonhos de autodeterminação econômica; pelo individualismo elevado ao seu paroxismo; pelo controle totalitário do cidadão pelo Estado Espião via redes digitais na Internet; pela colonização forçada pela supremacia da cultura da Potência Única (USA) ou simplesmente pela imposição da vontade dos Grandes Irmãos Brancos do Norte pela força das suas armas.   

O apogeu do capitalismo radical que poria um Fim da História como impossibilidade de novos fluxos e influxos reformadores e transformadores da sociedade - que assistimos iniciar-se na entrada dos anos de 1980 com as chegadas ao poder de Margareth Tatcher na Inglaterra e de Ronald Regan nos Estados Unidos - na verdade, neste terço do Século XXI, revela-se de fato, um ponto de flexão e tomada de impulso para um novo salto do processo histórico rumo à uma verdadeira e profunda evolução da sociedade ocidental e consequentemente, global.

O conluio entre o paquidérmico Donald Trump com o urso siberiano Vladimir Putin para exacerbar o domínio mundial pelos Irmãos Brancos do Norte, sinaliza claramente para a necessidade de um novo e rápido rearranjo nas forças mundiais em direção a uma bi ou tri-polarização global, tanto nos aspectos macroeconômicos, geopolítico, militares e ideológicos. Não deve demorar e, de  um lado, veremos alinhar-se os Estados Unidos e Russia, levando a reboque alguns países da Europa e da periferia terceiro-mundista; de outro a Liga Asiática puxada pela China e em terceira vertente, teremos com certeza - e por uma questão de autopreservação - o bloco de países em desenvolvimento como a Índia, África do Sul, o Brasil e algumas outras nações da América do Sul, da Europa e do Oriente Médio.

O cenário que se desenha, portanto, aponta não para o Fim da História, mas sim, indica de forma inegável para o nascimento de uma Nova História em que o capitalismo neoliberal bárbaro cederá lugar, impreterível e irremediavelmente, à uma nova utopia político-ideológica, um novo modelo de governança predominante globalmente: o Neo-Socialismo Democrático.

 o Neo-Socialismo Democrático dispõe de ferramentas políticas modernas e eficazes, cerne ideológico humanista e libertário sedimentado sobre sólidos pilares de Justiça e Liberdade que permitirá a construção de um Estado de bem-estar social

O Neo-Socialismo Democrático a que me refiro vai além das limitadas definições preconizadas incialmente por Edward Bernstein e, posteriormente, complementadas por  Donald Busky, Jim Tomlinson, Norman Thomas e Roy Hattersley, que situam o sistema em oposição simples ao socialismo stalinista que vigorou nos países sob influência da ex-União Soviética até meados dos anos de 1990.

O neo-socialismo democrático dá um passo adiante ao absorver as lições dos fracassos dos regimes stalinistas primitivos para superar o centralismo administrativo e econômico, a supressão das liberdades individuais e da livre iniciativa, do fim da propriedade privada e da alternância de poder de governança executiva.

A nova governança proposta pelo Neo-Socialismo Democrático é uma saída que se imporá por esta exaustão popular provocada pelo capitalismo selvagem que tem flagelado o mundo inteiro, gerada pelas pesadas perdas de direitos sociais, elevação do custo de vida, do desemprego, da desvalorização do trabalho pelo excesso de lucros do capital improdutivo e especulativo, pelas guerras de expropriação de riquezas não renováveis e de imposição de ideários hegemonizantes assim como pelo fracasso moral, ético e político-administrativo do modelo burguês de democracia seletiva.

 O Neo-Socialismo Democrático se constituirá como alternativa preferencial dos governos na Nova História por uma evolução revolucionária da percepção política da sociedade nos próximos anos. Pois, ao contrário da governança burguesa neoliberal bárbara, incorpora em sua essência estrutural uma economia efetivamente democrática e descentralizada, um governo rotativo eleito livremente e com um Congresso Nacional subordinado efetivamente ao poder decisório da sociedade organizada.

Em síntese, o Neo-Socialismo Democrático dispõe de ferramentas políticas modernas e eficazes, cerne ideológico humanista, coerente e libertário sedimentado sobre sólidos pilares de Justiça, Democracia e Liberdade. O que permitirá a construção de um Estado de bem-estar social, com uma justa redistribuição da carga fiscal e da renda, a condução de setores estratégicos sob controle e ou orientação estatal para que, assim, o crescimento do país, proporcionado pelas riquezas nacionais, pelo capital e pelo trabalho de cada um, alcance a totalidade dos cidadãos e não fique concentrado nas mãos de poucos extratos sociais como ocorre atualmente.

*Antonio P. Pacheco é jornalista e escritor


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