Nacional

SIMBOLO INTERNACIONAL 20/03/2018 10:27

Marielle vira símbolo global na luta contra a violência diz Washington Post

Segundo o jornal Washington Post, um dos mais respeitados do mundo, a vereadora Marielle Franco, barbaramente assassinada no Rio de Janeiro, se torna agora um símbolo global na luta contra a violência a discriminação racial

Da Redação

Com Brasil 247 e Washington Post

O jornal Washington Post, um dos mais respeitados do mundo, dedica sua capa desta terça-feira 20 à ativista Marielle Franco, brutalmente executada no Rio de Janeiro.

Segundo o jornal Marielle se torna agora um símbolo global na luta contra a violência a discriminação racial.

A reportagem questiona o mito da "democracia racial" e destaca o genocídio praticado contra a população negra, pobre e periférica no Brasil.

Em outro ponto, o jornal também ressalta que o crime até agora não foi esclarecido.

Confira, abaixo, um trecho da reportagem:

Uma mulher negra e política foi morta a tiros no Rio. Agora ela é um símbolo global

Anthony Faiola and Marina Lopes

Washington Post

RIO DE JANEIRO - Antes de entrar no Chevrolet Agile às 9h04 da noite da última quarta-feira,14, Marielle Franco acabou de fazer o que melhor fez: animou a plateia. "Vamos fazer isso", disse a vereadora de 38 anos com o seu cabelo Afro preso na testa e sol sobre os ombros em cascata, enquanto fazia um discurso na Casa das Mulheres Negras do Rio, pedindo o empoderamento da mulheres negras contra a violência e a discriminação.

O Brasil precisa disso, disse ela, que denunciava com insistência os problemas da metrópole carioca, principalmente a brutalidade policial e as execuções extrajudiciais que estariam devastando as favelas.

Eleita no ano passado como a única mulher negra no município de 51 membros do Rio, ela seguiu denunciando os responsáveis pelos abusos contra a população negra das favelas, fazendo ecoar cada vez mais alto e de forma desconfortável o seu discurso nos debates dos quais participava. Em uma sociedade que há muito se viu como pós-racial, argumentou Marielle Franco, a matança não era apenas uma guerra contra os pobres. Era também uma guerra contra os negros.

Trinta minutos depois da reunião, dois veículos se aproximaram de seu Chevy branco. "Huh?", Ela disse, de acordo com o testemunho de um assessor em seu carro, enquanto os tiros estalavam. O carro foi atingido por nove disparos, dos quais, quatro a atingiram na cabeça. As balas, descobriu-se, eram de um lote comprado pela Polícia Federal.

Mas se o motivo do assassinato de Marielle Franco fosse silenciar um político negro que se elevou rapidamente e que denunciou policiais corruptos, a morte dela fez o contrário. Nos últimos dias, a maior nação da América Latina viu com admiração como uma figura pouco conhecida fora do Rio, foi transformada em símbolo global da opressão racial.

Marielle Franco foi homenageada no Parlamento Europeu. Multidões protestaram contra o seu assassinato e celebraram sua vida nas ruas de Nova York, Londres, Paris, Munique, Estocolmo e Lisboa. Uma vigília será realizada para ela em Madri na terça-feira. A expressão: "Marielle Presente" (Marielle Is Here), conquistou milhões de menções no Twitter e no Facebook. De Berlim a Miami a Montreal, pessoas que nunca ouviram falar de Marielle Franco antes da semana passada estão emprestando uma linha do movimento Black Lives Matter: #SayHerName.

"VENHA NO BRASIL STAND UP", tweetou o modelo britânico Naomi Campbell.

Mas em casa, sua morte está sendo vista de maneiras divergentes, ressaltando as divisões raciais que muitos brasileiros afirmam que não existem aqui.

Seus assassinos não foram pegos. Mas o escritório do Ministério Público federal no Rio diz que a evidência, incluindo o assassinato altamente profissional, aponta para um golpe de policiais corruptos. As balas, dizem as autoridades, vieram de estoques de munições policiais. Um representante da polícia civil não comentaria nada além de dizer que a investigação está em andamento.

Em alguns círculos, particularmente na elite branca do Brasil, o assassinato está sendo visto como um ato hediondo que remete o problema do enxerto e da violência desenfreados em uma cidade que há muito serviu como rosto do Brasil. Mas não está sendo visto como uma questão de raça.

 "Seu derramamento de sangue não pode ser usado como um momento oportuno para falar sobre ódio", disse Ana Amélia, uma senadora do estado do Rio Grande do Sul, que é branca. "Quando você fala sobre uma divisão preto-branco, você está contribuindo para esta divisão".

Mas alguns ativistas negros e de esquerda chamam essa atitude de parte do problema. Eles dizem que isso reflete um sistema de crenças que finge que a raça não está relacionada com a violência desproporcional sofrida pelos brasileiros de cor - especialmente nas mãos da polícia e aplicadores da lei.

Criticada e sob pressão, a polícia também está sob ameaça da violência: pelo menos 120 policiais foram mortos em 2017, incluindo muitos em confrontos com traficantes de drogas, de acordo com o Instituto Igarapé, com sede no Rio de Janeiro. Mas no ano passado, 1.124 pessoas morreram nas mãos da polícia, o maior número em uma década, informa o instituto. Nos últimos anos, quase 80 por cento dos mortos pela polícia eram negros ou mestiços.

Políticos masculinos brancos no Brasil também procuraram levar os policiais corruptos à justiça. Mas Marielle Franco foi alvo, insistem seus defensores, porque tirar a vida de uma mulher negra é menos arriscado no Brasil, especialmente em um estado onde apenas 1 em cada 10 casos de homicídio resulta em uma condenação judicial.

Como uma lésbica negra de esquerda, Marielle Franco representou uma interseção de movimentos que se combinam e que resultou em seu assassinato. Dezenas de milhares de brasileiros de todas as cores tomaram as ruas no rescaldo de sua morte.

Alguns esperam que o assassinato da vereadora marcará um ponto de virada para o ativismo negro - um conceito que tem lutado para decolar no Brasil. A tempestade da indignação também está tornando mais conhecimentos movimentos políticos do segmento populacional negro que grande parte dos brasileiros ainda não sabia existir como uma enxurrada de tweets sob a hashtag #genocidionegro (#blackgenocide). "É hora de falar", disse um manifestante. "É hora de falar sobre raça, porque somos os que sofremos".

 

(Tradução livre/Antonio P. Pacheco)


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